Pesadelos

Pesadelos

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Há uma semana, tomei a vacina contra febre amarela. Na última noite, tive febre. Uma reação natural, como já haviam me avisado.

O resultado é que passei a noite inteira com aqueles sonhos obscuros e desencontrados. Uma pequena coleção de pesadelos. Histórias que nasciam já pela metade e que morriam antes do fim. Emendavam-se umas nas outras, antes de eu saber no que iriam dar, afinal, aqueles roteiros nonsense que meu cérebro fervilhante criava.

Em uma delas, estávamos próximos à eleição. Um candidato que defendia a ditadura liderava as pesquisas! Ele louvava torturadores, dizia que as minorias deveriam se adaptar à maioria, desprezava homossexuais e achava as mulheres inferiores. Falava abertamente e geralmente ria ao final das frases. O sonho era opressivo. E piorava. Eu estava aprisionado em um sofá. A televisão ligada. Queria levantar, mas não conseguia. Centenas de mãos de cidadãos de bem saiam em meio ao couro e me seguravam. O candidato continua rindo, enquanto gritava que a solução para a violência na favela era dar umas horas de aviso e depois subir atirando em quem ficou.

Eu sei, eu sei. Era um pesadelo louco. Louco como a febre. Mas era tão… tão real.

Quando consegui fugir dele, veio outro. Pessoas derramavam agrotóxico nas lavouras. Com uniformes pretos e uma insígnia nos ombros. Era o símbolo de um laboratório, mas não me recordo qual. Depois que acordamos, esses detalhes ficam confusos. O pesadelo avançava no tempo e eu via as pessoas a minha volta morrerem lentamente com cânceres variados. Às vezes, mais de um ao mesmo tempo. Elas sofriam. Seus familiares e amigos sofriam. Era horrível. Eu tentava escapar. Comprar produtos orgânicos. Eles haviam sido proibidos. Tudo o que podia ser comido estava envenenado.

Eu morri doente e renasci andando em uma estrada empoeirada. Na minha mão direita, estava a da minha filha mais velha. Na minha cacunda, a mais nova. Seu rosto pendia para o lado de cansaço. Estávamos com fome. E com medo. Trazíamos apenas um mochila, com tudo o que sobrou da nossa casa. Fugíamos da guerra. Alguém lá atrás nos perseguia. Ou por nossa cor. Ou por nossa religião. Ou por nossa etnia. Esse detalhe também me fugiu. Ao nosso redor, uma massa humana caminhava em um sofrimento mudo, apenas interrompido por gemidos ocasionais. Íamos para um lugar onde não nos queriam. Íamos tropeçando com os empurrões de um destino cruel. Era uma jornada que não acabava nunca. Minha filha mais velha quis parar, exausta. Na nossa frente, apenas mais estrada.

Acordei com um grito curto.

Ainda sentia o peso da minha filha nas costas. Mas aos poucos percebi que era apenas a tensão do meu pescoço.

A camisa grudava no meu corpo. Estava encharcado. E cansado, como se tivesse corrido quilômetros.

Pesadelos.

Apenas isso.

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