Quando passamos a aceitar a morte de crianças?

Quando passamos a aceitar a morte de crianças?

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No livro O Grande Projeto, Stephen Hawking e Leonard Mlodinow utilizam o exemplo do peixe dentro de um aquário redondo para demonstrar como funciona a nossa percepção da realidade. Para o peixe, as imagens do mundo a seu redor são distorcidas e tudo se move em curva. O exemplo é um eco distante da Alegoria da Caverna, uma parábola escrita por Platão há mais de dois mil anos, que também demonstrava como o nosso conceito de normalidade e a forma como pensamos depende do que vivemos no nosso dia a dia.

Esta semana ocorreu uma operação policial em uma favela do Rio de Janeiro. Sete pessoas foram mortas. Seis suspeitos de ligação com o tráfico e de assassinarem um inspetor da polícia civil. E o último era um adolescente.

Marcos Vinícius da Silva tinha 14 anos. Saiu atrasado para a escola, mesmo ouvindo os sons do tiroteio próximo à sua casa, no Complexo da Maré. Aquele barulho era um fato cotidiano. Fazia parte da sua normalidade. No caminho, foi alvejado pelas costas. Ao amigo que estava do lado, disse para não se preocupar, que tudo ficaria bem.

A mãe de Marcos Vinícius foi chamada e o encontrou com vida. O filho lhe disse que viu quem havia atirado nele. O blindado. E ele perguntou à mãe se não tinham visto que ele estava com a roupa da escola.

A mãe permaneceu mais de uma hora, assistindo impotente a vida do filho esvair. A ambulância foi barrada pela polícia. Somente depois de uma liberação específica, vinda do alto da burocracia de comando, pode recolher Marcos. O adolescente sobreviveu até depois da cirurgia de emergência.

Há tantos erros chocantes nessa história, que é quase impossível criticar a todos. Vou me deter em apenas um.

Não é aceitável que nós ordenemos a execução de operações policias, quando elas colocam em risco a vida de inocentes.

Nós, no caso, somos eu e você. E nossas famílias e amigos. E todos os que elegem representantes políticos. Estes comandam as forças policias. O “Estado”, em última análise, somos nós.

Alguma porcentagem da força que moveu o gatilho daquela arma veio da gente. Há um respingo de sangue dele em cada um.

Não podemos achar que o assassinato de crianças são uma consequência indesejável, mas inevitável, da “guerra” contra o crime.

Nossa noção de realidade está distorcida.

Imagine que o seu filho está servindo de refém. Há um grupo armado de seis criminosos mantendo-o dentro de um prédio. Você está do lado de fora, assistindo a tudo chocado. Então, ouve o oficial no comando dizer que é perigoso demais enfrentar aquele grupo. Ele autoriza que se jogue uma bomba lá dentro e se elimine a ameaça. Você se vira enfurecido, dizendo que o seu filho morrerá também. O oficial diz que seu filho pode morrer ou não, mas que aquilo evitará a morte de policiais e de vítimas futuras dos criminosos. A morte do seu filho passou a ser o mal menor. Uma “baixa” aceitável nessa estranha contabilidade de vidas.

Todos aqueles que vivem em um local onde o crime está organizado e disseminado, hoje, são reféns. Suas mortes nos combates entre policiais e bandidos provocam indignação momentânea, críticas, comoção e, na semana seguinte, são esquecidas. Transformam-se em meras estatísticas de violência e nada muda.

Para mim, isso não é mais aceitável.

Não sou especialista em segurança pública, mas obviamente há outras formas de se combater a violência. Entre maio de 2012 e abril de 2013, as polícias da Inglaterra e do País de Gales dispararam apenas três tiros. E não mataram ninguém. Óbvio, são realidades distintas. Mas é este caminho que devemos tomar e não aquele pavimentado de sangue, no qual estamos.

Precisamos sair do aquário.

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