Entrevista para o Portal iG

Entrevista para o Portal iG

Por Reinaldo Glioche , iG São Paulo

Juiz se experimenta na ficção científica com “Um Passeio no Jardim da Vingança”

Obra de Daniel Nonohay é uma ficção científica ambientada no sul do País e se passa em um futuro em que implantes cibernéticos no cérebro são possíveis. No bate-papo com o iG, autor falou de suas inspirações

Não é incomum ver magistrados lançarem-se ao metiê de escritores. Para além da literatura jurídica, há experiências muito bem sucedidas, como a do ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto, autor de diversas obras de poesia. É neste fluxo que trafega com invejável desenvoltura Daniel Souza de Nonohay, juiz do trabalho, que já pode ser encontrado nas livrarias com “Um Passeio no Jardim da Vingança”. Uma obra que alia Philip K. Dick à brasilidade e acrescenta uma pitada de vingança à receita.

Nessa entrevista, Daniel fala mais sobre “Um Passeio no Jardim da Vingança” , uma ficção científica ambientada em uma Porto Alegre do futuro e que tem tanto reverberações tecnológicas, como reminiscências jurídicas. Nonohay é hábil em construir uma narrativa irrigada por fatos, amparados por uma pesquisa detalhada, e imaginação.

Trata-se de um livro indicadíssimo para os fãs de ficção científica , mas que deve agradar também aos leitores abertos a uma obra elaborada que exceda sua vocação de entreter com algo a dizer.

Confira a entrevista concedida por Daniel Nonohay ao iG:

iG – Você costuma ler muita ficção científica? Quais são suas principais referências no gênero?

Daniel Nonohay – Eu leio um pouco de tudo, até bula de remédio, como dizia o Analista de Bagé, personagem do Luis Fernando Veríssimo.

Na minha adolescência, lia principalmente obras de ficção científica de Frank Herbert, George Orwell, Júlio Verne, Isaac Asimov e Arthur C. Clarke.

Não tínhamos, na época, as facilidades de acesso que se tem hoje. Era um mundo pré-internet, apenas com televisão aberta e restrita a quatro ou cinco canais, quando existiam. Todos os livros que me caiam nas mãos, portanto, eram consumidos. Isso incluía fantasia (Tolkien), terror (Stephen King, F, Paul Wilson, Dean Koontz), e romances históricos (Ken Follett). Além, é claro, do Arthur Conan Doyle e da Agatha Christie.

A ficção científica é um gênero com grandes ideias literárias, mas, contraditoriamente, sem muitos escritores que se destaquem pela sua qualidade de narração. O livro que ganhou o prêmio Hugo de 2015,O Problema dos Três Corpos, escrito pela Chinês Cixin Liu, é um exemplo. Ideias grandiosas envelopadas por uma narrativa que não está à altura. Embora não seja um livro ruim – longe disso.

Como referências de escritores da minha vida adulta na ficção científica, posso citar o Philip K. Dick e o China Mieville.

iG –    Este é um livro bem corajoso da perspectiva narrativa. É tanto um drama de reminiscências jurídicas, como uma ficção de reverberações tecnológicas. Do ponto de vista do autor, como foi costurar esses elementos?

DN – Eu escrevi o livro que queria ler. Um livro que acredita na inteligência do leitor e procura surpreender mesmo quem está acostumado a obras de suspense e ficção científica. Eu o considero assim, um livro de suspense, numa roupagem de ficção científica.

A ficção científica e a fantasia permitem um exercício maior de criação pelo autor. Nelas, além da história em si, dos personagens e de outros elementos da trama, há uma exigência de construção do enredo e do mundo no entorno dos personagens, pois ele é estranho ao leitor.

Com base nisso, se eu vou escrever um suspense, procuro acrescentar algum elemento fantástico ou tecnológico, que lhe dê alguma originalidade. Nada que suplante ou obscureça a história em si. Ela permanecerá um drama, uma comédia ou um suspense e assim por diante. O seu pano de fundo ou cenário, deve, apenas, torná-la mais interessante.

Por exemplo. O filme “Blade Runner, O Caçador de Androides”, baseado no livro “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, do Philip K. Dick, que mencionei acima. É uma ficção científica, obviamente. Agora, se você analisar a história de perto, é um filme de faroeste com uma roupagem diferente.

A concatenação de toda a história do “Um Passeio no Jardim da Vingança”, com a divisão entre presente, passado e futuro, exigiu muitas horas de elaboração e muitas horas refazendo capítulos inteiros a fim de eliminar todas as possíveis contradições e inconsistências.

Por aquelas manias inexplicáveis que cada escritor tem, fiz questão de que ninguém lesse o livro até ele estar pronto. Quando terminei, minha mulher, leitora beta de todas os meus textos, leu e não encontrou nenhum erro de “sincronia”- e ela costuma ser bastante crítica. Foi um alívio. O livro passou, posteriormente, por revisões críticas, que também não sugeriram alterações na sua estrutura ou apontaram incongruências na história.

Todo esse processo, mesmo sendo muito trabalhoso, deu-me um imenso prazer. Um prazer que eu espero dividir com os leitores. Ao final, o que eu queria era isso, contar uma boa história.

iG –  Porque ambientar a história no Rio Grande do Sul?

DN – Porto Alegre é a cidade na qual nasci, cresci e vivo. Eu canto o mundo que conheço para ser universal, observando o ensinamento de Tolstói.

A história de “Um Passeio” poderia se passar no Rio de Janeiro, em Paris ou Joanesburgo. Poderia ocorrer em praticamente qualquer centro urbano desenvolvido. Tanto no futuro, quanto no presente ou mesmo no passado.

Utilizei Porto Alegre, também, por ser um “porto” seguro. Um local sobre o qual não teria que realizar outras pesquisas, além daquelas que já estava fazendo para poder criar a história.

Também considerei que, embora o Rio Grande do Sul tenha grandes escritores, não possui uma tradição em livros de ficção científica ou fantasia ambientados aqui. Há casos isolados, como de Enéias Tavares. Isso tem que mudar.

Além de Porto Alegre, também utilizei como “âncora” da narrativa o desenvolvimento da história em um meio, o jurídico, que conheço e frequento desde que nasci.

Estes foram os “pontos de conforto” para a criação do livro.

iG –   Quais são os conflitos do Ramiro e que conflitos do Daniel ele carrega?

DN – Ramiro é um advogado de meia idade, bem-sucedido, que foi um viciado em drogas, mulheres e tecnologia. Com o passar dos anos, ele cai em uma apatia. Nada mais lhe estimula ou interessa, nem no campo profissional, nem no pessoal.

Ele é um amálgama de características de diversas pessoas com quem convivi e convivo no mundo jurídico.

As principais “ligações” que eu tenho com Ramiro vêm da profissão, uma vez que fui advogado antes ser juiz, de um amor desde de a infância por tecnologia e do fato de eu estar chegando na meia-idade.

A meia-idade é um momento no qual você percebe que não é imortal. Isso te obriga à reflexão. Obriga a uma avalição do que viveste até ali e a definir o que gostaria de fazer com o que resta do seu tempo. No livro, Ramiro, além de estar nesta idade “perigosa”, é levado a reconsiderar toda a sua vida por uma experiência de quase-morte.

Meus conflitos são bem diversos dos dele. Ele se vê vazio de propósitos ou motivações. Busca algum motivo para dar sentido a sua existência. Eu já vejo a minha com propósitos demais. Tenho que selecionar minhas motivações, para não deixar uma interferir na outra. Agora, se eu pudesse, colocaria os mesmos implantes que ele.

iG –    Ao longo da história humanidade tivemos contato com grandes tramas de vingança. Na literatura, no cinema e mesmo em novelas. Cite algumas que te marcaram e por quais razões.

DN – A primeira ideia do livro era uma espécie de adaptação do Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. Conforme fui desenvolvendo os personagens, contudo, eles reagiram às situações de forma diferente daquela esperada, o que conduziu a história para outro rumo.

Isto é algo interessante. “O Passeio” tem uma galeria variada de personagens densos. Não há heróis estereotipados. Não há personagens simples. Todos são cheios de contradições, defeitos e qualidades. Ora são confusos, ora são de uma simplicidade pedestre. Como nós.

O desejo de vingança é um sentimento que dá ao autor uma amplitude imensa de possibilidades para trabalhar o personagem. A vingança legitima, por exemplo, a violência. Se há identificação do leitor com o personagem que sofreu, ele admitirá e até comemorará maldades que normalmente reprovaria.

A vingança também permite uma moralidade duvidosa.

Outros livros interessantes a respeito de vingança, que me recordo agora, são “A Maldição do Cigano” e “Carrie”, ambos do Stephen King, “A Guerra dos Tronos”, onde vários personagens são movidos por ela e “Acima de Qualquer Suspeita”, de Scott Turow.

iG –  É possível perceber “Um Passeio no Jardim da Infância” como uma crítica metafórica a certos aspectos que testemunhamos no mundo de hoje? Em que sentido?

DN – O mundo de “Um Passeio no Jardim da Vingança” é uma das possíveis projeções do mundo que vivemos. Todas as tecnologias abordadas, inclusive as médicas, ou existem ou estão em fase de desenvolvimento. Os mecanismos sociais também. Este foi um cuidado que tive. Criar um futuro crível e com o qual o leitor se identifique.

Há críticas metafóricas em vários pontos do Passeio, como, por exemplo, na segregação pela pobreza. Ela já existe hoje e tende a ficar cada dia mais clara, principalmente com a guinada que estamos dando de um Estado preocupado com o problema social para um Estado preocupado somente em manter a ordem e a estabilidade econômica.

iG –  Você chegou a pesquisar sobre o tema de implantes cibernéticos? Como foi essa pesquisa?

DN – Minha pesquisa baseou-se, fundamentalmente, em livros sobre o funcionamento do cérebro, em textos e reportagens sobre implantes e em textos médicos com relatos de experimentos sobre a interação da mente com dispositivos digitais.

Para quem se interessa no assunto, recomendo os livros “Como a Mente Funciona”, de Steven Pinker, e “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, de Oliver Sacks. O primeiro é mais técnico, embora seja acessível a leigos. O segundo contém relatos sobre pessoas que sofreram algum tipo de lesão cerebral e a forma como isso as afetou. Por meio deles, Sacks, um excelente e sensível escritor, discorre sobre as particularidades do cérebro.

iG –  Qual a importância da religião e da religiosidade nesse universo que você criou?

DN – A religião tem um papel fundamental em qualquer sociedade. Mesmo naquelas em que deliberadamente se tentou erradicá-la, acaba ressurgindo ao primeiro sinal de descuido. Alguns veem nisso o milagre da fé. Outros, uma falha inerente ao caráter humano. De qualquer modo, não há como criar uma sociedade, mesmo no futuro, onde a religião não desempenha uma função importante.

No “Um Passeio”, a religião, ou melhor, uma entidade religiosa tem um papel central na trama, sendo o instrumento que conduz as ações de diversos personagens, mesmo que eles desconheçam isso.

iG –  Você já tem planos para um próximo livro?

DN – Eu estou escrevendo o próximo livro, que planejo lançar no segundo semestre de 2017. É história pensada para ser lançada em forma de folhetim.  Algo que se aproxima de uma pulp fiction. Se “Um Passeio” ocorre no futuro, esta nova história ocorre no passado, iniciando no ano de 1952 e atravessando o período da ditadura. A história tende para o realismo fantástico e para a fantasia.

Está nos planos iniciar, em meados de 2018, outra história no universo de “Um Passeio no Jardim da Vingança”.

Link da notícia: http://gente.ig.com.br/cultura/2017-04-23/passeio-jardim-da-vinganca.html

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