Sonhos de trem: a realidade de um operário e de pessoas simples

Sonhos de trem: a realidade de um operário e de pessoas simples

Sonhos de trem, de Denis Johnson, é uma narrativa crua e densa sobre a vida e a morte de Robert Grainier, operário na construção de estradas de ferro e carreteiro

O livro Sonhos de Trem, sobre o trabalhador braçal Robert Grainier que viveu em Idaho (EUA), no início do século XX, é uma novela. Em sua única edição lançada no Brasil pela Companhia das Letras, há apenas 85 folhas. No entanto, a história que conta não é breve.

A prosa de Denis Johnson é um exemplo de como uma narrativa pode ser desidratada até os seus elementos essenciais. Cada palavra tem significado. Cada frase tem importância. Cada parágrafo concentra um episódio importante da vida de Greinier. Cada capítulo pode ser tratado como um conto.

O tom direto é dado desde a abertura:

No verão de 1917, Robert Grainier participou da tentativa de assassinato de um operário chinês flagrado roubando, ou pelo menos acusado disso, no armazém da companhia ferroviária Spokane Internacional, na estreita faixa de terra que forma o cabo da frigideira do mapa de Idaho.

O chinês, ao final, consegue escapar, não sem antes jogar uma maldição sobre os seus captores.

A história é construída sobre os resquícios do mundo do velho oeste, que acreditamos conhecer depois de milhares de outras obras de ficção. Sonhos de Trem, todavia, não idealiza nada. Traz uma verdade plana sobre a realidade de pessoas simples, que trabalham duro dia a dia, imersas em superstições e em uma natureza bela, generosa e cruel.

Ao retornar de uma temporada em um acampamento de trabalho, Robert Greinier encontra em chamas a região onde construiu a sua cabana e deixou a mulher e a filha. A descrição da caminhada dele, a partir do trem, passando pelos desabrigados e embrenhando-se nas cinzas da floresta faz-nos sentir o cheiro de queimado. Para demonstrar o desespero de Greinier, Johnson precisa de uma descrição mínima. O segredo do impacto é, exatamente, esta concentração.

Apesar do estilo direito e sintético, somos conduzidos pela vida de Greinier pela narrativa em terceira pessoa, de forma quase poética. É uma história à qual retornamos e refletimos muito depois de acabar o livro, encontrando novos significados e correlações entre as passagens. Além disso, ao redor de Greinier, desfilam diversos outros personagens, que são criados em poucas linhas, de forma crível e humana, provocando uma forte empatia no leitor.

A novela Sonhos de Trem, em resumo, é uma pequena obra de arte, que merece ser lida por todos os interessados em um texto elegante, sintético e poderoso e no qual não é esquecido o principal dever do escritor – contar uma boa história.

Sonhos de Trem foi finalista do Pulitzer no ano de 2011. Outro romance de Denis Johnson, Árvore de Fumaça, também foi finalista do Pulitzer em 2008 e ganhou o National Book Award for Fiction no ano de 2007. O escritor foi considerado pela crítica um dos maiores escritores americanos. Sua escrita é marcadamente influenciada por Ernest Hemingway e aproxima-se de Cormac McCarthy. O início da sua carreira foi atrapalhado pelo uso (abusivo) de álcool e drogas. Desse modo, apenas a partir de 1983 conseguiu se ver livre dos dois e produzir com regularidade. Infelizmente, morreu em maio de 2017, vitimado por câncer.

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